Ninguém sabia como ou quando aconteceu. Na realidade, me surpreende até que uma só alma daquela cidade houvesse percebido. Mais ainda! Pergunto como aquilo foi parar na boca do povo. Todos adoram uma boa fofoca... E se for um drama então... Todos se sensibilizam a passá-lo adiante. E é isso que eu vou fazer...
Seu nome ninguém conhecia de verdade. Em um instante era João, logo à frente o chamavam de Pedro. Enquanto na cabeça de muitos só poderia ser Judas.
Foi como Judas que conheci sua história, e dessa forma irei lhes contar.
Há quem jure que nunca ouviu sua voz. Outros dizem que adorava distribuir sorrisos. A única certeza em que todos concordavam: Judas não era de faltar às missas... Aliás, nunca deixou de ir à igreja aos domingos. Durante 3 anos e 3 meses. Ou melhor, 39 moedas de ouro - Depositava todo primeiro domingo do mês uma moeda na caixinha do dízimo.
Na pequena cidade, o punhado de habitantes era distribuídos em três quarteirões que ladeavam a praça, e suas construções morriam nas paredes da igreja, formando um círculo que era cortado ao meio por uma estrada semi-nova apesar de ter muitos anos.
Uma estrutura muito favorável ao telefone-sem-fio de fofocas, que em pouco tempo circulava toda a cidade, retornando ao início sem que o autor dos boatos fosse capaz de reconhecer as próprias informações cedidas.
No início do quarto mês do quarto ano, ao abrir a caixinha ao final da missa, o padre contou as moedas. Contou outra vez, e mais uma. E então, outras três depois dessa, até concluir que faltava uma moeda.
Ele consultou sua memória, que declarou que todos estavam ali na missa daquele domingo. Não entendia, porque nunca antes alguém atrasou o dízimo. Logo pensou nas travessuras dos coroinhas. Iria interrogá-los. No entanto, decidiu esperar até o próximo domingo.
E demorou a chegar. Não que os dias tivessem mais horas, mas prestava-se mais atenção nelas.
Naquele dia, antes de perguntar a qualquer um que fosse sobre que fim levara a moeda, o padre resolveu observar para não cometer um deslize. Até que algo chamou sua atenção. Um espaço vazio. Logo no primeiro banco. Celebrou a missa tentando se lembrar a quem pertencia aquele pedaço de madeira.
Aquela moeda que faltava pertencia a quem naquele lugar se sentava. Sinceramente, o sacerdote de mais nada sentia falta. A não ser do metal dourado.
O sorriso lhe veio a mente, e se perguntou como poderia ter se esquecido de alguém que sempre foi tão intrigante para ele. Da mesma forma que chegou, teria ido embora? Do nada? Talvez estivesse doente... Decidiu visitá-lo. Mas onde ele morava? Não fazia ideia.
Foi o já velho sacerdote a caça do tesouro. Ou melhor, de Judas. ;bateu em todas as portas dos três quarteirões. Entre xícaras de café e prosa com os fiéis, muito pouca informação obteve. Até que quase fora da cidade, em uma fazenda que criava ovelhas, um pastor lhe deu a resposta:
- Acredito que esteja a procura de Judas. O que me espanta muito, já que em mais de três anos, nunca recebeu uma única visita. Mas entre, entre. Venha tomar um café que minha senhora acaba de passar.
O pastor tinha um jeito muito simples e que apesar das boas condições financeiras, não se preocupava em escondê-lo por baixo de trajes elegantes como o resto da cidade.
- Temo que sua viagem tenha sido em vão... Judas não está mais entre nós. – Continuou enquanto abria a porteira para o padre entrar. – Ele partiu há mais de uma semana... É uma pena mesmo! Teria adorado a sua visita.
- E para onde ele foi? – Apressou- se a perguntar.
- Para o Reino dos Céus, meu caro. O senhor não deveria saber? Não tem ligação direta com Deus?
O sacerdote arregalou os olhos e começou a pensar no que dizer, mas foi interrompido imediatamente por uma gargalhada.
- HAHAHA! Estou a brincar com o senhor. É claro que sei que as coisas não funcionam desta forma.
Os dois sentaram na casa. A mulher do pastor lhes serviu café e bolo de fubá, enquanto o dono da casa se pôs a contar que fim levara Judas.
- Ele chegou há anos. Pediu um lugar para passar a noite. Dormiu no celeiro daí por diante. Trabalhava no pasto cuidando de minhas ovelhas em troca de um metro de feno e teto, mais uma moeda de ouro que recebia todo final de mês.
“Pelo visto não tinha família por perto. E só Deus sabe com o que gastava as moedas que ganhava., pois nunca o vi comprar um par de meias sequer. O que faz todo sentido. Não tinha sapatos tampouco...”
O padre engoliu em seco antes de perguntar:
- Morreu de quê?
O pastor deu de ombros...
Quando o encontrei, estava pendurado na ponta daquela corda ali – disse apontando para uma corda que pendia do encosto de uma cadeira logo a frente. – Ele próprio a usava para capturar pelo pescoço as ovelhas fujonas. Que ironia...
Antes de dar as costas e ir embora, o padre tinha apenas mais uma pergunta:
- Ele morreu no final do mês passado. Isso quer dizer que ficou sem receber sua moeda de ouro?
- Sim... Estava indo entregá-la quando o encontrei.
E finalmente alguém lamentaria a morte de Judas... Ou de Pedro... Talvez João...







