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domingo, 26 de setembro de 2010

Quando perdi e ganhei um amigo.

O primeiro conto que posto aqui no blog. Sem nenhuma fidelidade com fatos reais, não excluindo a possibilidade de ser a história alguém.



Posso ver as pessoas olhando para mim, consigo imaginar o que elas estão pensando. Toda essa falsa empatia só me faz sentir ainda mais culpa. Digo “falsa” porque nada disso reflete aquilo que estou sentindo, mas me lembra de como eu deveria estar.
Tudo veio em forma de fofoca, entre os arranjos de mesa da festa de casamento, e o novo carro do vizinho, durante uma dessas rotineiras ligações de minha irmã.

- Eu não sei qual escolher... Todos são tão lindos! Quando a Dé chegar, pede pra ela me ligar, quero que me ajude. Ah, e com o vestido também. Na verdade eu já escolhi o modelo, mas quero a opinião dela... Arthur? Ta aí?
- Desculpa, sabe que não consigo te acompanhar quando você começa a tagarelar. Mas já anotei aqui: “Dé, ligar para Luciana”. Mas alguma coisa?
- Não, era só isso mesmo... Ei Thur, você ficou sabendo? Acho que já, né? Eu sinto muito, sei que vocês não eram tão próximos mais, mas mesmo assim.
- De novo eu me perdi. Do que você está falando?
- Do Diego. Tão novo e com dois filhos ainda...


É verdade, não éramos mais tão próximos... DOIS FILHOS? Quando isso aconteceu? Mas nem tão distantes também, fiquei sabendo que ele morava a algumas quadras de distância.
Amigos de infância, daqueles inseparáveis. (Às vezes tentava me lembrar de como ele era. Impossível sem a ajuda das fotos.) Seguimos assim, inseparáveis, até o fim do colegial, quando ele passou no vestibular na federal, e se mudou para a capital. No começo parecia tudo normal, uma amizade inabalável, ele passava as férias aqui, trocávamos e-mails, e algumas conversas pelo telefone. Mas com o tempo, outras responsabilidades surgiram, novos amigos entraram em nossas vidas, a falta de tempo e por fim o desinteresse fez com que a amizade esfriasse, até ficar apenas nas lembranças. Passei a abrir minha caixa eletrônica com menos freqüência, os telefonemas eram cada vez mais raros, e os encontros ficaram apenas nos planos.
Voltou à cidade anos depois de formado. Na época, me perguntaram se eu iria visitá-lo, mas não fazia sentido tentar retomar algo que parecia tão perdido, hoje, confesso que não sei mais.

A minha frente, vejo uma mulher debruçada em seu caixão, presumo ser sua esposa. Ao redor, reconheço alguns amigos do colegial, tão quanto desconhecidos para mim. Estou parado próximo a porta, não tenho coragem de me aproximar, imagino ser por vergonha de ter me tornado tão ausente, por vergonha de não ter derramado nenhuma lágrima com a notícia da morte de meu melhor amigo.
Sem eu perceber, a mulher que antes estava chorando junto ao marido, agora estava do meu lado.
- Você deve ser o Arthur. Não está muito diferente das fotos... Ele vivia vendo aquelas fotos, e reclamando do péssimo amigo que era por não conseguir nem se lembrar de como o melhor amigo era. Passava várias vezes em frente à sua casa, sem coragem de bater na porta. Ele dizia estar tudo perdido.

O olhar daquela moça estava distante, as lágrimas caiam e ela já nem se importava, não havia mais soluços como deveria ter tido no início. Era como se ela falasse não para mim, mas para o homem que já não podia responder.

- Passamos tanto tempo tentando preencher o vazio que a falta de alguém nos faz, tentando esquecer aqueles que mais amamos que não percebemos que todo aquele tempo perdido poderia ter sido para evitar tantas mágoas e decepções. Não conseguimos admitir nossos erros, com isso não nos permitimos perdoar os dos outros.

Como meu amigo, eu já não podia responder, pois não havia perguntas.
Meus primeiros passos foram vacilantes, ainda com muito receio, foi quando as lágrimas começaram a cair.

Tanto tempo perdido, tantas desculpas inventadas, e para quê? Para afastar quem mais amamos.
Mal sabe o que fala quem diz que quem deixou de ser amigo é porque nunca amigo foi. E se engana mais ainda quem diz que amigos podem deixar de ser amigos. Eles simplesmente se vão de nossas vidas, às vezes voltam, e muitas delas não permitimos que dela, façam parte novamente.

Hoje eu perdi um amigo que há muito não sabia que tinha.

Um comentário:

  1. "por vergonha de não ter derramado nenhuma lágrima com a notícia da morte de meu melhor amigo."

    Pô, trecho marcante. Carregamos nossa história conosco, e quem teve um papel importante desta forma permanece em nós. Assim que penso quando ele é chamado de 'melhor amigo' no tempo presente. E a falta de lágrimas, coerente com o tempo afastados, contrasta bem com isso e faz pensar sobre como essas coisas são estranhas.

    Meus sentimentos pelo amigo que vc perdeu.

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